Inteligência Artificial e Gestão de Crises Climáticas: Como o Brasil Começa a Modernizar sua Resposta a Desastres
O Brasil enfrenta um problema que cresce mais rápido do que sua capacidade de resposta: o número de emergências provocadas por eventos climáticos extremos saltou de pouco mais de 1.600 ocorrências entre 2015 e 2019 para quase 6.100 entre 2020 e 2024, um aumento superior a 270% em apenas uma década. Diante desse cenário preocupante, uma tecnologia já consolidada nos Estados Unidos, capaz de acelerar em até 95% a resposta a desastres climáticos, começa a ser implantada no país. Este artigo analisa o que essa inovação representa, quais são seus fundamentos práticos e por que sua chegada ao Brasil importa muito além do aspecto tecnológico.
A Plataforma que Chegou ao Brasil
A ferramenta em questão é o WebEOC, desenvolvida pela empresa norte-americana Juvare, referência global em sistemas digitais para gestão de emergências. Presente nos 50 estados americanos e em mais de 25 países, a Juvare firmou parceria com a Codex, empresa brasileira especializada em governança de dados e mudanças climáticas, para introduzir a solução no mercado nacional. A estratégia inicial foca em governos estaduais, que costumam exercer papel central na coordenação de respostas regionais e no suporte a municípios atingidos por eventos extremos.
O funcionamento da plataforma parte de uma lógica operacional clara: reunir, em um ambiente único e acessível em tempo real, todas as informações relevantes durante uma crise. Isso inclui dados sobre ocorrências em andamento, equipes mobilizadas, recursos disponíveis, mapas de áreas afetadas, rotas logísticas e registros operacionais. O resultado é uma visão compartilhada da situação entre diferentes órgãos, como Defesa Civil, forças de segurança, hospitais e administrações municipais, eliminando o gargalo mais crítico em situações de emergência: a fragmentação das informações.
O Problema Estrutural que a Tecnologia Precisa Resolver
Vale contextualizar o que essa fragmentação significa na prática. No Brasil, a estrutura de defesa civil é distribuída entre estados e municípios, com capacidades técnicas e recursos muito distintos entre si. Enquanto os Estados Unidos dispõem da FEMA, agência federal que centraliza diretrizes e coordena operações nacionais com autoridade e infraestrutura consolidadas, o sistema brasileiro ainda opera, em grande medida, por meio de comunicações paralelas, planilhas isoladas e protocolos que variam de acordo com cada instância de governo. Em uma emergência real, essa descoordenação pode custar vidas.
Resultados Concretos em Outros Países
Os casos internacionais demonstram o potencial da tecnologia de forma objetiva. No condado de Harnett, na Carolina do Norte, a integração do WebEOC com o assistente de inteligência artificial JAI reduziu em 85% o tempo de trabalho das equipes em processos que antes exigiam a atuação manual de até oito profissionais. Tarefas que consumiam horas passaram a ser concluídas em aproximadamente 30 segundos. Além disso, a plataforma ampliou em quatro vezes suas aplicações operacionais, sendo utilizada também para simulações de crise, monitoramento de recursos e embasamento de decisões orçamentárias.
Outro caso relevante ocorreu no Canadá, durante o Furacão Fiona em 2022. O Centro Provincial de Coordenação da costa leste do país chegou a receber mais de mil comunicações diárias provenientes de mais de cem pontos de contato. Com o WebEOC, parte significativa desse volume passou a ser processada automaticamente, permitindo que os profissionais se concentrassem em decisões estratégicas em vez de tarefas administrativas de consolidação de dados.
Adaptação ao Contexto Brasileiro
A localização da plataforma para o Brasil será conduzida pela Codex e envolve a tradução do sistema, ajustes nos termos de uso e adequação das funcionalidades às estruturas jurídicas e administrativas do país. Esse processo não é meramente formal: ele determina se a tecnologia será de fato absorvida pelas instituições ou permanecerá como mais um projeto-piloto sem continuidade. A experiência internacional mostra que a adoção bem-sucedida de plataformas de gestão de crises depende tanto da qualidade técnica quanto da capacidade de integração com os fluxos de trabalho existentes.
Tecnologia é Condição Necessária, Mas Não Suficiente
Do ponto de vista analítico, a chegada dessa tecnologia ao Brasil precisa ser lida dentro de um contexto mais amplo. O país já demonstrou, em catástrofes como as chuvas do litoral paulista em 2023 e as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que a deficiência não está apenas na infraestrutura física, mas na arquitetura da informação durante crises. Saber onde estão os recursos, quem está coordenando o quê e como as informações fluem entre órgãos distintos é um problema de governança tanto quanto de tecnologia.
Modernizar a resposta a desastres climáticos no Brasil exige justamente essa combinação: ferramentas digitais robustas, integração institucional efetiva e vontade política de romper com o modelo fragmentado que ainda predomina. O WebEOC pode representar um avanço concreto nessa direção, mas seu verdadeiro impacto dependerá, sobretudo, da qualidade com que for implementado e da disposição das instituições em transformar dados em decisão.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

