A reciclagem de plásticos é um dos temas mais debatidos e, ainda assim, um dos menos compreendidos em sua dimensão técnica e operacional. Nesse sentido, Elias Assum Sabbag Junior, como empresário e especialista em embalagens plásticas, acompanha as dinâmicas desse mercado e observa que parte significativa das dificuldades enfrentadas pelo setor deriva não da falta de tecnologia, mas de gargalos na coleta, na separação e na rastreabilidade do material pós-consumo. Com novas metas regulatórias em discussão e uma infraestrutura de reciclagem em expansão no Brasil, o momento exige uma análise objetiva do que funciona, do que ainda precisa evoluir e de onde estão as oportunidades reais.
Nas próximas linhas, você vai entender os principais entraves do setor e os caminhos concretos que estão sendo construídos para superá-los.
O gargalo começa antes da reciclagem
Grande parte do plástico que poderia ser reciclado no Brasil não chega às plantas de reprocessamento em condições adequadas. A contaminação por resíduos orgânicos, a mistura de diferentes tipos de resinas em um mesmo fluxo e a falta de triagem eficiente nas centrais de coleta seletiva são obstáculos que comprometem tanto a quantidade quanto a qualidade do material recuperado. Assim, o problema não está no fim do processo, mas muito antes dele, expõe Elias Assum Sabbag Junior.
De acordo com dados do setor, o Brasil recicla cerca de 23% de seus resíduos plásticos, um índice superior à média mundial, mas ainda distante do potencial estimado de recuperação. Desse modo, o fortalecimento da coleta seletiva, a profissionalização das cooperativas de catadores e o desenvolvimento de tecnologias de triagem automatizada surgem como os vetores de expansão mais consistentes identificados por especialistas do segmento. Cada um deles, vale ressaltar, exige investimento coordenado entre setor público e privado para produzir resultados em escala.
Resinas pós-consumo e o mercado que se organiza
O mercado de resinas plásticas pós-consumo evoluiu de forma expressiva nos últimos anos. O que antes era tratado como resíduo de baixo valor passou a ser disputado por indústrias que precisam incorporar conteúdo reciclado aos seus produtos para atender a exigências de clientes, de editais públicos e, cada vez mais, de legislações específicas que estabelecem percentuais mínimos obrigatórios.
Na concepção de Elias Assum Sabbag Junior, o desenvolvimento desse mercado depende de três condições simultâneas: oferta constante e bem caracterizada de material pós-consumo, capacidade de reprocessamento em escala e demanda industrial disposta a pagar por resinas recicladas certificadas. As três condições estão em processo de amadurecimento no Brasil, porém ainda de forma assimétrica. É justamente nessa assimetria que reside boa parte dos desafios atuais, e também onde se concentram as maiores oportunidades para quem decidir agir antes do mercado se consolidar.
Reciclagem química: tecnologia em expansão
A reciclagem mecânica, que tritura, lava e reprocessa o plástico para gerar nova resina, é a modalidade mais consolidada. Ainda assim, encontra limitações técnicas em materiais contaminados, compostos multicamadas ou resinas misturadas, o que restringe o universo de plásticos efetivamente recuperáveis por esse caminho. Nesse cenário, a reciclagem química, que decompõe o plástico em seus constituintes moleculares para gerar novos produtos petroquímicos, surge como complemento indispensável e tecnicamente promissor.

Iniciativas de reciclagem química estão em andamento no Brasil, com investimentos de empresas petroquímicas e startups especializadas. No plano global, companhias como Dow, BASF e Plastic Energy avançaram na escala industrial dessas tecnologias entre 2023 e 2025, sinalizando que a viabilidade econômica do processo se aproxima em contextos de alta demanda por resinas certificadas. Conforme evidencia Elias Assum Sabbag Junior, o Brasil reúne condições para se posicionar nesse movimento, desde que os investimentos em infraestrutura acompanhem o ritmo crescente da demanda.
Logística reversa como infraestrutura de valor
A logística reversa, mecanismo pelo qual fabricantes e importadores ficam responsáveis pela destinação adequada de seus produtos no pós-consumo, é um dos pilares operacionais da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Para o setor de embalagens plásticas, estruturar canais de retorno eficientes não é apenas uma obrigação legal: é, acima de tudo, uma oportunidade de construir relacionamento com o mercado e gerar dados valiosos sobre o comportamento dos materiais ao longo de seu ciclo de vida.
Além disso, operações que integram a logística reversa ao planejamento do produto, e não como um apêndice operacional, conseguem reduzir custos de coleta, aumentar a qualidade do material recuperado e transformar o processo em diferencial competitivo perante clientes e consumidores. A experiência acumulada por Elias Assum Sabbag Junior reforça que essa integração precisa acontecer ainda na fase de desenvolvimento da embalagem, e não depois que o produto já está no mercado, quando as possibilidades de ajuste são muito mais limitadas.
O papel da indústria na construção de soluções sistêmicas
Nenhum ator isolado resolve o desafio da reciclagem. A construção de sistemas eficientes depende de cooperação entre fabricantes de embalagens, marcas consumidoras, empresas de coleta e triagem, recicladores, poder público e consumidores. Cada elo tem papel específico e insubstituível, e qualquer fragilidade em um desses pontos compromete o desempenho de todo o sistema. Nesse quesito, a abordagem mais eficaz não é setorial, mas sistêmica.
A tendência observada em mercados mais maduros, como Alemanha, Países Baixos e Japão, indica que a consolidação de sistemas robustos de reciclagem leva décadas e exige investimento contínuo em infraestrutura, educação e regulação. No Brasil, o caminho está em construção, mas o ritmo acelerou de forma perceptível nos últimos anos, impulsionado por uma combinação de pressão regulatória, demanda de mercado e crescente consciência ambiental ao longo das cadeias produtivas.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

