Quando o assunto é acesso à mamografia, a conversa costuma girar em torno de filas, distância até o serviço de saúde ou disponibilidade de equipamento, mas raramente chega a um fator menos visível e igualmente decisivo: quanto o SUS efetivamente paga por cada exame realizado. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, chama atenção para o fato de que boa parte dos valores da tabela de procedimentos do SUS ficou praticamente congelada desde 2013, uma defasagem que, segundo entidades médicas, chegou a acumular perdas de até 1.300% em determinados procedimentos ao longo desse período.
Esse descompasso ajuda a explicar por que muitos serviços privados e filantrópicos hesitam em manter ou ampliar convênio com o sistema público, já que o valor recebido por exame frequentemente não cobre nem o custo operacional envolvido em realizá-lo com qualidade. Entender como funciona essa remuneração, e por que ela impacta diretamente a oferta de exames disponíveis para a população, ajuda a explicar um obstáculo estrutural que raramente aparece nas discussões públicas sobre acesso à prevenção do câncer de mama.
Como funciona, na prática, o pagamento de uma mamografia pelo SUS?
Diferente da saúde suplementar, em que valores são negociados entre operadoras e prestadores conforme dinâmica de mercado, os valores pagos pelo SUS são definidos centralmente pelo governo federal, por meio da chamada tabela de procedimentos, sem qualquer vínculo automático com o custo real de mercado de cada exame. Isso significa que, enquanto insumos, equipamentos e mão de obra especializada seguem reajuste natural da economia, o valor pago pelo procedimento em si pode permanecer estagnado por anos, criando uma distância cada vez maior entre custo de operação e remuneração recebida.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa defasagem específica ficou tão evidente que, em janeiro de 2024, foi sancionada uma lei federal determinando revisão anual obrigatória desses valores, justamente para tentar corrigir um problema que se arrastava há mais de dez anos sem correção formal. Para ele, essa mudança legal é positiva, mas ainda depende de execução prática consistente ano após ano para realmente reverter o atraso acumulado.
O que acontece quando o valor pago por um exame não cobre seu custo real de realização?
Diante de remuneração insuficiente, alguns serviços optam por reduzir o número de vagas destinadas ao SUS, priorizando atendimento particular ou por convênio, enquanto outros buscam reduzir custos operacionais de formas que podem comprometer a qualidade do exame, como espaçar a manutenção do equipamento ou reduzir a frequência de calibração recomendada. Em ambos os casos, quem sente o impacto direto é a paciente dependente exclusivamente do sistema público, que pode enfrentar fila maior para conseguir vaga ou, em situações mais graves, receber um exame realizado em equipamento sem manutenção adequada.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, esse tipo de efeito em cadeia raramente é percebido pelo público em geral, que tende a associar problemas de acesso apenas à falta de equipamento ou de profissionais, sem enxergar que a própria estrutura de remuneração pode estar desestimulando a oferta de vagas mesmo onde existe capacidade instalada disponível.
Existem sinais de que essa realidade já está mudando em algumas regiões do país?
Sim, e um exemplo concreto veio do estado de São Paulo, que em março de 2025 reajustou em até 125% os valores pagos por procedimentos voltados à saúde da mulher, incluindo a própria mamografia, que passou de vinte e dois reais e cinquenta centavos para quarenta e cinco reais por exame. Ainda que o valor absoluto continue relativamente modesto diante do custo real de operação de um serviço de radiologia, o movimento sinaliza reconhecimento explícito de que a defasagem anterior já comprometia a sustentabilidade da oferta desses exames dentro da rede conveniada ao SUS.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, iniciativas estaduais como essa deveriam servir de modelo para uma correção mais ampla em nível federal, já que a defasagem de remuneração não é exclusividade de nenhum estado específico, mas um problema estrutural presente em praticamente todo o território nacional. Ele reforça que, sem essa correção, mesmo o melhor protocolo de rastreamento pode falhar simplesmente por falta de serviços dispostos a mantê-lo funcionando na prática.
Por que essa discussão deveria ganhar mais espaço no debate sobre prevenção do câncer de mama?
Falar sobre políticas públicas de prevenção envolve muito mais do que definir idade de início do rastreamento ou tecnologia recomendada; envolve também garantir que a estrutura financeira por trás desses exames sustente uma oferta de qualidade ao longo do tempo. Ignorar esse aspecto financeiro é tratar apenas metade do problema, deixando de lado justamente a engrenagem que determina se um protocolo bem desenhado no papel realmente se traduz em vagas disponíveis na prática.
Em suma, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que qualquer debate sério sobre ampliar acesso à mamografia precisa necessariamente incluir a discussão sobre remuneração adequada dos serviços que realizam esse exame, já que, sem sustentabilidade financeira, nenhuma meta de cobertura populacional se sustenta a longo prazo, por melhor que seja a intenção por trás dela.
Corrigir essa defasagem histórica não resolve sozinho todos os desafios de acesso à mamografia no Brasil, mas remove um obstáculo estrutural que, por ser pouco visível ao público em geral, acaba recebendo bem menos atenção do que merece dentro do debate sobre prevenção do câncer de mama.

