Após anos de experimentos e promessas, a IA deixou de ser tendência para virar infraestrutura real de negócios, e o país começa a sentir as consequências disso no mercado de trabalho e na gestão das empresas.
O Brasil vive, neste junho de 2026, um momento singular na relação com a inteligência artificial. O que até pouco tempo atrás parecia um horizonte distante ganhou forma concreta nos processos das empresas: a tecnologia parou de orbitar os departamentos de inovação e entrou de vez nas rotinas de produção, atendimento, logística e tomada de decisão. Para quem acompanha o setor, esse salto tem um nome: consolidação. E, com ele, surgem perguntas práticas que a maioria dos profissionais ainda não sabe responder.
A transformação pode ser percebida nos números. Segundo a Alura, 78% das empresas nacionais planejavam ampliar seus investimentos em IA ainda em 2025, e 67% das empresas brasileiras consideram a IA uma prioridade estratégica, com foco em otimizar operações, reduzir custos e gerar novas fontes de receita. O governo federal também se moveu: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. O ecossistema está aquecido, os recursos estão disponíveis, mas a dúvida que paira sobre gestores e profissionais é a mesma: como tirar proveito real dessa onda sem perder o controle? AluraAlura
O que mudou na forma como a IA é usada pelas empresas
Depois de um ciclo marcado por anúncios grandiosos e expectativas infladas, a inteligência artificial entrou em 2026 em um novo estágio de maturidade, se afastando do deslumbramento inicial para assumir um papel mais pragmático: entregar resultados mensuráveis. Isso significa, na prática, que as ferramentas de IA deixaram de ser vitrines tecnológicas para se integrar ao dia a dia das organizações, da análise de dados ao atendimento ao cliente. TechTudo
Entre as tendências mais relevantes para o mercado está a integração definitiva da IA aos processos centrais das empresas, com IA embarcada em ERPs, CRMs e plataformas de dados, além de automação inteligente de decisões estratégicas e uso de modelos especializados por setor. Esse movimento não é apenas tecnológico: ele muda a forma como as decisões são tomadas, exige novos perfis profissionais e obriga líderes a repensar a governança interna. Scansource
Outro ponto que ganhou tração foi a evolução dos chamados agentes de IA. Uma das principais tendências de 2026 é a evolução dos assistentes digitais para agentes autônomos, capazes de executar tarefas completas e tomar decisões com menor intervenção humana. Na área de saúde, finanças e varejo, esses agentes já estão sendo testados em escala, com resultados que variam conforme o grau de maturidade de cada organização. Scansource
Ética, governança e os riscos que ninguém quer ignorar
A expansão acelerada traz consigo um conjunto de dilemas que as empresas precisam enfrentar com mais seriedade. O debate ético deve ganhar ainda mais espaço em 2026: questões como privacidade de dados, viés algorítmico, segurança cibernética e uso indevido de sistemas inteligentes passam a ser discutidas não apenas por especialistas, mas também por governos e pela sociedade civil, com pressão crescente por transparência no funcionamento dos algoritmos. TechTudo
Empresas que adotarem práticas responsáveis de governança de IA, com auditorias, explicabilidade e políticas de uso ético, tendem a ganhar vantagem competitiva. Do outro lado, organizações que ignoram essas questões correm o risco de sofrer sanções legais e danos à reputação, em um ambiente regulatório que está amadurecendo rapidamente tanto no Brasil quanto no exterior. A Scansource, em análise publicada em janeiro de 2026, reforçou que em 2026 esses temas passam a ser prioridade nas estratégias de adoção de IA, incluindo a mitigação de vieses e o uso responsável da tecnologia (scansource.com.br). ScansourceScansource
O próprio governo federal demonstrou atenção ao tema. Em junho, o AI Experience 2026, realizado no Instituto Serzedello Corrêa, em Brasília, reuniu autoridades e executivos para discutir os rumos da nova economia baseada em IA. A proposta foi conectar diretamente líderes do setor público e privado em um ambiente de influência real sobre decisões estruturais do país, com mais de 40% do público influenciando diretamente decisões de orçamento e infraestrutura (visitebrasilia.com.br). Visite Brasília
A lacuna de talentos que pode travar o avanço brasileiro
Por mais que as empresas estejam dispostas a investir e o governo esteja mobilizado, existe um obstáculo concreto que ameaça o ritmo da transformação: a falta de profissionais qualificados. O Brasil enfrenta um déficit significativo de profissionais capacitados em inteligência artificial, apesar da expansão da tecnologia. Essa escassez afeta desde equipes técnicas até lideranças capazes de conduzir a adoção de IA com visão estratégica. TechTudo
A projeção global ajuda a entender a urgência. Relatórios da UNCTAD projetam que o mercado global de IA deve atingir a marca de US$ 4,8 trilhões até 2033, e gigantes como Amazon, Google e Microsoft planejaram injetar juntas mais de US$ 300 bilhões em 2025 para acelerar suas infraestruturas. O Brasil, por sua vez, ainda enfrenta o desafio de desenvolver tecnologia própria e reduzir a dependência de soluções importadas, o que torna ainda mais urgente a formação de talentos locais. Alura
Eventos como o Summit de IA Brasil 2026, realizado de 18 a 20 de junho em Joinville, com mais de 80 palestras e 140 expositores (sympla.com.br), mostram que o ecossistema está em movimento. Mas a distância entre aprender sobre IA em um evento e aplicá-la com consistência dentro de uma organização ainda é grande. Fechar essa lacuna será o principal desafio dos próximos meses, tanto para profissionais quanto para as empresas que apostam na tecnologia como diferencial competitivo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

