O Senado dos Estados Unidos colocou em pauta uma votação sobre o Ratepayer Protection Act, projeto que pretende evitar que famílias e pequenas empresas arquem com os custos da expansão da infraestrutura elétrica necessária para atender grandes data centers. A proposta mira investimentos como novas linhas de transmissão, subestações e outras instalações exigidas pela conexão de consumidores de alto volume à rede.
Apresentado pelo senador republicano Jon Husted, de Ohio, o texto determina que reguladores estaduais considerem a adoção de regras para que grandes consumidores paguem pelos investimentos adicionais provocados por sua entrada ou expansão no sistema elétrico. A votação no Senado estava prevista para 30 de setembro de 2026, segundo informações da Associated Press.
A proposta já havia avançado na Câmara dos Representantes. Em 16 de setembro de 2026, os deputados aprovaram o projeto por 417 votos a 3. O comunicado divulgado pelo gabinete do senador Jon Husted afirma que a medida busca proteger consumidores comuns contra possíveis aumentos relacionados à construção de infraestrutura para data centers.
Disputa sobre quem deve pagar pela expansão da rede
O debate no Congresso americano ocorre em meio ao crescimento acelerado de instalações usadas por empresas de computação em nuvem e inteligência artificial. Esses complexos exigem grande quantidade de eletricidade e, em alguns locais, podem demandar reforços na rede antes mesmo de iniciarem plenamente suas operações.
Defensores do projeto argumentam que os custos diretamente relacionados a esses empreendimentos não devem ser distribuídos entre todos os usuários por meio das tarifas. A preocupação é que consumidores residenciais e pequenas empresas acabem pagando por obras que atendem principalmente a grandes companhias de tecnologia e processamento de dados.
Os críticos, porém, consideram o texto insuficiente porque ele orienta os estados a avaliar a adoção do padrão, mas não obriga todos os reguladores a implementá-lo. A resistência também está relacionada ao alcance da proposta, que se concentra na divisão dos custos de infraestrutura e não estabelece um conjunto amplo de exigências para o funcionamento dos data centers.
Consumo de eletricidade deve crescer com a inteligência artificial
Dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos ajudam a dimensionar o impacto do setor. De acordo com o relatório da agência, os data centers consumiram aproximadamente 4,4% da eletricidade do país em 2023.
A estimativa é que essas instalações possam responder por 11,8% do consumo nacional de eletricidade até 2030. O estudo apresenta uma faixa de cenários entre 9,5% e 15,3%, indicando que o resultado dependerá do ritmo de expansão da computação em nuvem, da inteligência artificial, da eficiência dos equipamentos e da disponibilidade de geração e transmissão.
Esse crescimento transforma a infraestrutura energética em uma questão diretamente ligada à política de tecnologia. A construção de novos centros de processamento pode exigir usinas, linhas de transmissão e subestações, além de ampliar a pressão sobre os sistemas locais de fornecimento. A forma de financiar essas obras pode influenciar tarifas, decisões de investimento e a localização de futuros projetos.
Democratas pedem regras sobre água, energia e transparência
O senador democrata Mark Warner, da Virgínia, afirmou que a proposta pode servir como ponto de partida, mas defendeu medidas mais abrangentes. Em comunicado publicado em seu site oficial, Warner pediu regras relacionadas ao consumo de energia e água, aos impactos ambientais, aos sistemas de geração de emergência e à transparência das operações.
A Virgínia é um dos principais polos de data centers dos Estados Unidos e está entre as regiões mais expostas aos efeitos da expansão do setor. O estado concentra instalações voltadas a serviços digitais e computação em nuvem, o que torna mais visível a disputa entre crescimento tecnológico, capacidade da rede elétrica e proteção dos consumidores.
O resultado da votação poderá influenciar a forma como os estados americanos tratam novos projetos de infraestrutura digital. Também pode afetar empresas brasileiras que utilizam serviços de nuvem hospedados nos Estados Unidos, embora a proposta esteja voltada diretamente às regras americanas de eletricidade e regulação.
Mais amplamente, a discussão mostra como o avanço da inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão de software e capacidade computacional. A expansão do setor depende de energia, água, terrenos, redes de transmissão e regras claras para definir quem assume os custos e os impactos associados aos grandes data centers.

