A lupa preta nos rótulos realmente muda o que você compra? Lucas Peralles esclarece o que a ciência revela. 

Lucas Peralles
Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez

Desde 2022, embalagens de alimentos industrializados no Brasil trazem um símbolo em formato de lupa preta, alertando sobre excesso de açúcar, gordura saturada ou sódio. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do Método LP, acompanha com interesse os efeitos dessa mudança regulatória sobre o comportamento dos consumidores e explica que os dados coletados desde a implementação revelam um cenário mais complexo do que se costuma supor.

Pesquisas conduzidas ao longo do primeiro ano de vigência da nova rotulagem mostraram resultados mistos quanto à efetividade do símbolo escolhido pela Anvisa. Enquanto alguns estudos indicam que boa parte dos consumidores reduz a intenção de compra diante do alerta, outros levantamentos revelam dificuldade significativa de interpretação do símbolo, especialmente quando comparado a modelos alternativos testados durante o processo de decisão regulatória, como o formato de triângulos de advertência.

Quer saber mais sobre como isso pode mudar sua alimentação? Acompanhe o artigo a seguir!

Por que o modelo escolhido pelo Brasil gera tanto debate entre especialistas?

Durante o processo de consulta pública que definiu o formato final da rotulagem brasileira, estudos comparativos mostraram que aproximadamente oitenta por cento dos participantes conseguiam identificar corretamente o alimento mais saudável quando exposto a rótulos em formato de triângulo, enquanto apenas sessenta e quatro por cento acertavam essa mesma identificação usando o modelo de lupa, que acabou sendo o adotado oficialmente. Essa diferença, embora pareça pequena, representa uma parcela considerável de consumidores que compreende de forma incompleta a informação que o próprio rótulo deveria comunicar com clareza.

Segundo Lucas Peralles, esse dado ajuda a explicar por que muitos pacientes atendidos na Clínica Peralles ainda relatam dificuldade real de interpretar rótulos de produtos industrializados, mesmo diante da existência do símbolo de alerta. Não por acaso, o Brasil se tornou o único país da América Latina a vincular a norma de rotulagem frontal à norma completa de informação nutricional, o que representa avanço regulatório importante, mas que ainda convive com limitações claras de compreensão por parte do consumidor final.

O alerta realmente reduz o consumo de produtos ultraprocessados?

Levantamentos mais recentes mostram que a maioria dos consumidores relata reduzir, ao menos parcialmente, a quantidade pretendida de compra diante da presença do símbolo de alerta, indicando um possível efeito positivo no comportamento de escolha. Simultaneamente, estudos acadêmicos mais recentes indicam que modelos de advertência mais diretos, como os implementados no Chile e no México, que utilizam selos pretos em formato de octógono na parte frontal das embalagens, semelhantes a placas de “pare”, demonstraram uma eficácia comunicativa superior ao símbolo de lupa empregado no Brasil. Isso sugere que o modelo brasileiro ainda possui um espaço significativo para melhorias.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Na avaliação de Lucas Peralles, o problema não está apenas na compreensão do símbolo isoladamente, mas na disputa constante que ele trava com elementos de marketing visual cuidadosamente projetados para maximizar apelo emocional na mesma embalagem. Esse detalhe frequentemente ignorado explica por que um consumidor pode reconhecer racionalmente o alerta de excesso de açúcar e, ainda assim, ser conduzido pela embalagem a perceber o produto como uma escolha aceitável, um conflito de sinais que a prática clínica da Clínica Peralles observa com frequência ao revisar hábitos de compra dos pacientes.

Por que confiar apenas no rótulo pode ser uma estratégia insuficiente?

Diante desse cenário, delegar inteiramente ao rótulo a responsabilidade de orientar escolhas alimentares saudáveis parece uma expectativa exagerada frente ao que a evidência disponível demonstra até o momento. O símbolo funciona como uma ferramenta de alerta, mas não substitui a educação nutricional necessária para interpretar o contexto mais amplo de uma alimentação equilibrada, incluindo aspectos que a lupa sequer aborda, como a presença de adoçantes ou o grau de processamento do alimento.

Conforme explica Lucas Peralles, um dos objetivos centrais do trabalho realizado na Clínica Peralles é justamente desenvolver no paciente uma capacidade de leitura crítica que vá além do símbolo estampado na embalagem, permitindo decisões mais informadas mesmo diante de rótulos ambíguos ou de marketing agressivo. Essa autonomia de leitura é parte concreta do pilar de autonomia alimentar que sustenta o Método LP desde sua concepção.

O que essa discussão revela sobre o futuro da educação alimentar no Brasil?

A experiência brasileira com a rotulagem frontal mostra que mudanças regulatórias, por mais importantes que sejam, dificilmente resolvem sozinhas um problema de saúde pública tão complexo quanto o consumo excessivo de ultraprocessados. O alerta visual é uma peça relevante dessa engrenagem, mas depende de um consumidor capaz de interpretá-lo corretamente e de resistir às inúmeras estratégias de marketing que competem pela mesma atenção na gôndola do supermercado.

Para o fundador do Método LP, essa constatação reforça a importância do acompanhamento nutricional individualizado, capaz de traduzir informações regulatórias complexas em decisões práticas do dia a dia. De acordo com Lucas Peralles, ensinar o paciente a enxergar além do símbolo é um dos diferenciais mais relevantes de um trabalho que, na Clínica Peralles, busca formar consumidores mais conscientes, e não apenas seguidores de regras impostas de fora para dentro.

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